Ontem a coluna do PP tratou de acentuação. Em particular, explicou porque palavras como campainha, rainha e xiita não têm acento, e porque juíza tem acento mas juiz não. Basicamente, é porque não existem palavras com ditongo seguido de 'nh' ou ditongo 'ii'. Como ele não é lingüista, não levantou a questão do porquê de não existirem esses ditongos, simplesmente repetiu as regras.
Tente pronunciar essas palavras com ditongo (duas vogais na mesma sílaba) em vez de hiato (uma vogal em cada sílaba), mais ou menos como "campáinha" ou "ráinha". É difícil fazer isso sem parecer que o i desapareceu e a palavra virou "campanha" ou "ranha". Não sou especialista em fonologia, então a coisa não vai ser muito precisa aqui. O som do "nh" é nasal, e na palavra "campanha", por exemplo, nasaliza a vogal que vem antes, ou seja, o "a" vira meio que um "ã". (A mesma coisa acontece opcionalmente em "caneta" e "banana".) Em português do Brasil, existe uma tendência a ditongar algumas nasais. Por exemplo, a palavra "mãe" soa meio que como "mãin". (Na verdade, eu acho que é meio Tostines: ditongar nasais ou nasalisar ditongos? Em palavras como "muito", a tendência é nasalisar o "ui" e pronunciar "muinto". Mas eu não sei o que causa o quê...) Existem propostas de que em vez de vogais nasais o que nós temos é um ditongo nasal. Enfim, meu ponto é: se não pronunciarmos o "i" separado do "a" em campainha e rainha, acabamos com outras palavras. Então, a tendência natural é pronunciar o "i" separado. Portanto, não precisamos de acento em "campainha" e "rainha".
Quanto a "juiz" e "juíza", eu acho que é impossível dizer "júiz", com ditongo, é muito estranho. Talvez não soe tão mal pra pessoas que pronunciam "cruz" como "cruiz", porque para essas pessoas então "juiz" soa diferente de "jus" (como em "fazer jus ao nome") somente por causa da sílaba tônica. Enfim, para falantes, como eu, que não ditongam o "u" seguido de sibilante, só tem um jeito de pronunciar "juiz". Já "júiza" soa bem melhor, então se eu visse a palavra "juiza" sem acento e não soubesse o que significa, ficaria em dúvida entre dizer a palavra com ditongo ("júiza") ou hiato ("juíza"). Mas pra quem diz "cruis", "juiz" precisaria de acento tanto quanto "juíza". Mas provavelmente quem fez a regra achava que pronunciar "cruis" ou "naiscimento" é errado então não deve nem ser levado em consideração. Tsk, tsk, tsk. Como boa paulistana que diz "peinsar", não gosto que ignorem as ditongações das pessoas!
Um comentário do PP que me incomodou um pouco foi o seguinte: "Trata-se, portanto, da obediência estrita aos fundamentos das regras de acentuação, que, como já se viu, foram feitas para que se acentue o menor número possível de palavras." Hmmm... Interessante a questão da origem das regras de acentuação, e qual a fonte para saber o que é "mais comum" para determinar como acentuar "o menor número de palavras". Como eu já disse lá em cima, alguns dialetos são completamente ignorados. Além disso, estranhamente, palavras paroxítonas são as mais comuns mas também as que mais têm regras de acentuação. Será isso só um reflexo do número de palavras (mais palavras acabam gerando mais regras), ou será que as regras não estão muito bem feitas? Se o objetivo é acentuar o menor número de palavras, por que não abolir de uma vez todos os acentos das paroxítonas? Assim, só precisa de acento o que não for paroxítona, o que simplifica imensamente as regras de acentuação. Acho ótimo que haja a preocupação em simplificar, e pra isso tentar chegar a regras que rsultem em um menor número de palavras acentuadas. Mas quão funcional é esse sistema? Pra saber se uma palavra tem acento, temos que não só que saber as regras, mas também pensar o tempo todo se existe a possibilidade de um outro modo de se pronunciar tal e tal combinação em tal e tal dialeto. Eu pessoalmente acho que um processo mais simples, que tenha apenas uma regra que precisemos lembrar, é bem mais elegante que um processo complicado que resulte em um número menor de palavras com acento. Talvez economize tinta na gráfica, mas olha a complicação no processamento!
E existem também aqueles casos estranhos de acento diferencial. "Pêra" tem acento porque existe a preposição "pera" (que aliás nem é mais usada; a gente não sabe nem o que ela significa). E como a preposição não tem plural, "peras" não precisa de acento. Recapitulando: temos que lembrar que a palavra "pêra" tem acento no singular para que seja diferenciada de outra que nem existe mais na língua, e que no plural não tem acento porque não se confunde com nenhuma outra palavra. Uma simplificação e tanto, hein? E mais uma vez para mosttrar o caráter arbitrário das regras prescritivas, em Portugual eles acentuam a primeira pessoa do plural do pretérito perfeito da primeira conjugação para diferenciá-la do presente. Então "cantámos" é passado, e "cantamos" é presente. No Brasil, essa regra não existe. A explicação, até onde eu sei, é que no Brasil não diferenciamos a pronúncia dos dois tempos verbais. Mas desde quando regras da escrita levam pronúncia em consideração? Tá bom, algumas levam, mas é tão inconsistente que era melhor admitir que o jeito mais simples mesmo é fazer como os gregos e colocar acento em todas as sílabas tônicas de todas as palavras. Assim o pessoal que vende "côco" gelado na rua "Turiaçú" não seria tão discriminado! Fora que a gente poderia literalmente dizer: "enfia esse acento no c%#!".
Friday, April 20, 2007
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2 comments:
Sensacional!
Adorei seu blog!
ler todo o blog, muito bom
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