Thursday, April 26, 2007

Hipercorreção

Hipercorreção significa basicamente corrigir o que não estava errado. É mais ou menos assim: você pensa o jeito certo, acha que está errado e escreve do jeito errado. Isso acontece bastante quando as pessoas estão fazendo um esforço consciente de não errar e pode ser até engraçado. Conforme eu for lembrando de alguns casos eu vou postando aqui.
Resolvi falar desse tema porque a coluna do PP dessa semana falava sobre concordância com o verbo "haver". O título era "É necessário que hajam provas", que ele ouviu um juiz (sem acento!) dizer no rádio. Vamos ver por que o juiz hipercorrigiu aqui.
Em português europeu (PE), é comum inverter sujeito e verbo dependendo da ênfase. Em português brasileiro (PB) esse uso é cada vez mais raro. Então uma frase como "O cabrito comeu a Maria" faz um brasileiro, mas não um português, dar risada. Mas existe um caso em que ainda é comum inverter sujeito e verbo em português do Brasil: uma divisão dos verbos intransitivos chamada verbos inacusativos. Não vou entrar em detalhes, aqui estão alguns exemplos "chegar", "nascer", "cair". (Pra quem já estudou francês, são os verbos que usam "être" no passado; em italiano são os que usam "essere") A gente no Brasil então pode dizer "O menino chegou" ou "chegou o menino" sem causar estranhamento. Compare com "o menino brincou" e "brincou o menino"; a segunda frase não soa estranho?
Uma coisa engraçada que acontece quando a gente inverte sujeito e verbo com esses inacusativos é que a concordância costuma ir pro Beleléu. Por exemplo, é comum ver e-mails contendo "segue abaixo as informações", sem plural no verbo. E informalmente a gente diz "só chegou ontem os pacotes", "nasceu lá na loja cinco gatinhos", "vai cair três capítulos na prova", sem concordância. Como essa falta de concordância é super comum, é um dos pontos essenciais na hora de revisar um texto ou quando temos que falar em um ambiente mais formal. Afinal, ninguém quer ser lembrado como "aquele que não usa os plural direito".
De volta ao verbo "haver". Esse verbo NÃO é um inacusativo. A gente não pode dizer "um problema há", é sempre "há um problema". Com os inacusativos, a ordem é opcional. Mas a impressão que dá é que ele é como um inacusativo, porque não tem sujeito antes dele. Então muita gente acaba reanalisando frases com haver como se fossem "haver + sujeito". Já o verbo "existir" É um inacusativo, podemos dizer "provas existem" ou "existem provas". Nesse caso então, quando o sujeito vem depois, a norma diz que deve haver concordância. Acho que já dá pra ver a conexão aqui. Do mesmo jeito que a pessoa se policia para dizer "seguem os documentos" e "existem provas", ela acaba achando que "havia problemas" vai precisar de concordância, e acaba dizendo "haviam problemas". De tanto medo de errar, acaba corrigindo o que não tava errado!
Na mesma coluna, achei muito interessante o trecho: "É incrível como o cargo impressiona. Alguns leitores disseram que não teriam usado a forma "hajam", mas, quando a ouviram de um juiz, ficaram em dúvida. "Esses profissionais conhecem a língua, não, professor?", perguntou um deles. Devagar com o andor. Não se pode dizer que alguém seja desconhecedor da língua só por não flexionar adequadamente determinado verbo, ainda que esse verbo seja o fatídico "haver", que, como diria um certo jornalista, derruba reputações." Mais uma vez fica clara a associação entre o uso da língua e a posição social da pessoa. E como usar alguma coisa "errada" para algumas pessoas realmente derruba reputações. Tem gente que usa como única justificativa pra não empregar uma pessoa o fato de que o pobre coitado diz "pra mim fazer". Você sempre pode ensinar o cara a falar "pra eu fazer" se isso te irrita muito, mas é muito mais difícil ensinar alguém a ser honesto, inteligente, esforçado.

3 comments:

Anonymous said...

Oi, Cy!
Eu não sabia desse seu site, muito menos do seu blog.
Não sou da sua área mas achei muito interessante!!!
Prometo tentar acompanhar, ok? ;-)
Um beijo grandão!
Yuri

Elenita Rodrigues said...

Escreva mais! Interessantíssimo o blog!

Beijos.

Anonymous said...

Sim, provavelmente por isso e