Saturday, September 8, 2007

Futuro do Pretérito

Lá vou eu mais uma vez tentar manter esse blog vivo. Li a coluna do Pasqualito dessa semana. Ele apontou um dado super interessante, mas mais uma vez, o prescriptivismo dele impediu que ele olhasse pra esse dado com mais cuidado. Vou tentar resumir aqui.
Ele estava reclamando de quando as pessoas usam o futuro do pretérito pra se isentarem de responsabilidade sobre o assunto exemplo que ele dá é: "O muro teria caído porque havia infiltração de água", que ele ouviu em um telejornal. Segundo o PP, "de uns tempos pra cá há um verdadeiro dilúvio de formas do futuro do pretérito no rádio e na TV (e nos jornais também). A causa talvez esteja no receio de processos judiciais etc." A reclamação de que ninguém quer se responsabilizar pelo que diz eu até entendo, apesar de ser meio boba. Mas a maior reclamação nem era essa. Vejam a seguinte passagem:
"Mas voltemos ao muro, ou melhor, à informação veiculada ("O muro teria caído porque havia infiltração de água"). Fica-se com a impressão de que o muro não caiu, certo? Mas caiu, e como caiu! O que não se queria assumir era a informação sobre a provável causa da queda do muro (a infiltração de água). Mas o cacoete traiu o redator, que conjugou no futuro do pretérito o verbo que informa o que de fato ocorreu.
Dia desses, um noticiário esportivo informou que "O gol teria sido anulado porque o jogador...". Mas o gol foi de fato anulado, santo Deus! Sem querer apelar para um trocadilho infame, jogo duro, não?"
A reclamação aqui é a seguinte: as pessoas estão usando o futuro do pretérito para coisas que realmente aconteceram em vez de só na parte que é incerta. E isso parece incomodar nosso amigo ao extremo! O que ele não notou é que nos dois casos que ele cita há duas coisas em comum: orações subordinadas e uso de "porque".
Vejamos o caso das orações subordinadas primeiro. Existe um fenômeno que em inglês chama "sequence of tenses" (SOT) que pode ser exemplificado com a seguinte sentença: "O João disse que era médico." O uso do verbo "era" no passado não significa que o João não é mais médico. O verbo só está no passado porque "disse" está no passado. É um tipo de concordância. Mas não é bem isso que acontece no caso do PP. Eu só quis mostrar um exemplo de uma interação entre duas orações que resulta num tempo verbal que não tem significado em si, mas existe só para fins de concordância.
Vamos agora ao "porque". Existe uma ambiguidade que aparece quando "porque" está sob o escopo de "não". Considere as duas possibilidades de completar a frase em (1), dadas em (2) e (3):
(1) O José não foi preso porque estava envolvido no Mensalão...
(2) ... foi porque estava em outro escândalo.
(3) ... e os Mensaleiros livraram a cara dele.
Se usarmos a continuação em (2), significa que ele foi preso, mas não por causa do Mensalão. Se usarmos (3), significa que ele não foi preso e a razão de ele não ter sido preso foi porque os Mensaleiros ajudaram. Podemos esquematizar os dois significados assim:
(1), (2) - [X aconteceu] mas [não porque Y]
(1), (3) - [X não aconteceu] [porque Y]
A ambiguidade então existe porque a negação pode ser interpretada em dois lugares diferentes. Isso já foi apontado várias vezes na literatura.
Agora de volta ao futuro do pretérito. Vamos ver as frases consideradas problemáticas.
(4) O muro teria caído porque havia infiltração de água.
(5) O gol teria sido anulado porque o jogador...
A reclamação do Paspalhe é que os usuários dessas frases erraram porque elas dão a entender que o muro não caiu e que o gol não foi anulado. Em primeiro lugar, eu não acho que ninguém além dele teve problema algum em entender o que os falantes quiseram dizer. (Na verdade ele também entendeu!) Tiro meu chapéu pela observação do fenômeno, mas por que raios em vez de reclamar ele não fez a coisa científica a fazer, que é tentar entender o que está por trás.
O que negação e um tempo verbal como o futuro do pretérito têm em comum é que eles podem ser interpretados em lugar diferente de onde são pronunciados. Digamos que na hora de interpretar as sentenças em (4) e (5) a gente possa separar o tempo verbal do verbo em si. Consideremos o tempo verbal como significando [não compromisso com a verdade da afirmação]. A frase então fica:
(4´) [não compromisso com a verdade da afirmação] o muro caiu porque havia infiltração
(5´) [não compromisso com a verdade da afirmação] o gol foi anulado porque o jogador...
Então na hora de pôr um tempo verbal na frase que resulte nos significados em (4´) e (5´), o [não compromisso com a verdade da afirmação] pode se aplicar só aos verbos subordinados (haver ou seja lá o que o jogador fez), ou pode se aplicar á oração inteira. O significado então pode ser que a informação com cuja verdade o falante não se compromete é só a infiltração ou o fato de que o muro caiu por causa da infiltração; só o que o jogador fez ou o fato de que a causa da anulação do gol foi o jogador ter feito aquilo. Nenhum falante em sã consciência vai achar que o muro não caiu ou o que o gol não foi anulado. Principalmente porque as sentenças provavelmente estavam em contexto. É um fato realmente muito interessante que não seja possível aplicar o não compromisso com a verdade só ou ao verbo encaixado ou à sentença inteira. Pra quem sabe o que é c-comando, fica um pouco mais claro: não tem como a modalidade ter escopo sobre a oração principal sem ter escopo sobre a encaixada, mas o reverso é possível. Legal! E pensando bem, se o que o falante está especulando é a causa do incidente e não se a ação da encaixada ocorreu, faz muito mais sentido ter o modal com escopo sobre "porque" do que com escopo só embaixo do "porque".
Mais uma vez, falantes 1, prescriptivistas 0!
PS: Será que o PP acha que SOT também tá errado??

1 comment:

Edson Vilela said...

eu, porque parou de publicar, faz uma forcinha e bem legal as ideias.